O mundo pode esperar

Enquanto estudante universitário fazia as minhas deslocações para o IPAM de comboio e metro. Na altura surgiam os primeiros jornais gratuitos que me faziam companhia até à estação de metro da trindade, onde entravam os meus amigos de Vila Nova de Gaia. Guardo desses tempos as crónicas do Fernando Alvim, todas as quintas feiras no jornal “Metro”, que eu aguardava ansiosamente. Hoje ao ler uma das suas crónicas no “Jornal i”, senti a nostalgia do balançar da carruagem, do sol a espelhar o vidro e das mãos sujas de tinta…

O MUNDO PODE ESPERAR

Hoje sonhei que tinha ficado sozinho no mundo. E que de repente as lojas, as ruas, os estádios – mesmo em dias de jogos grandes – tinham ficado desertos. E assim, como sempre acontece, todos os semáforos ficaram intermitentes e os meus passos, que outrora foram mais uns no meio de tantos, ganharam um eco próprio de um homem que se prepara para dançar sevilhanas. Gostava pois que me imaginassem a descer a Avenida da Liberdade a ouvir unicamente os meus passos e a dança das folhas nos ramos das árvores. E olhar para tudo, como se a festa tivesse acabado e só restassem os copos espalhados pelo chão.

E perguntar-me: para onde terão ido todos? Porque raio me deixaram aqui sozinho? Ligo a televisão e não está ninguém a cantar, nem a dançar, nem a chorar por a vida ter sido madrasta. Ligo o rádio e nem uma música, nem uma voz a dizer as horas. Os jornais, um aglomerado de folhas em branco, sem títulos sensacionalistas e sem fotos que reconstituem crimes hediondos. Não se passava nada no mundo, como se de repente todos tivessem ido de férias e desligado os telemóveis. Tudo bem que ouço os meus passos a descer a Avenida da Liberdade – é muito agradável, muito prazeroso, sim – mas não ver uma saia curta o dia todo nem ver ninguém muito indignado a dizer que tudo isto é uma vergonha e que assim não pode ser faz- -me crer que nunca me adaptaria a uma ilha deserta. Assim, no meu sonho, também eu acabei por abandonar o mundo e ir ao vosso encontro.”

Fernando Alvim
Publicado originalmente no ionline

Filipe Matos Pereira

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